A tecnologia está a mudar a forma como praticamos exercício?

Out 7, 2026

A história repete-se um pouco por todo o mundo. Antes de “sairmos” para correr, o pulso já sabe como foi a noite, quantas horas dormimos, se o corpo recuperou e, por vezes, até se aquele é ou não um bom dia para exigirmos mais dele. Do corpo, portanto. Depois chegam outros números: frequência cardíaca, ritmo, distância, cadência, calorias, zonas de esforço. No fim, o relógio avalia o treino, estima a recuperação e sugere quanto tempo esperar antes de voltar a carregar. O exemplo é a corrida, mas estende-se a (quase) todo o tipo de desporto.

A promessa é sedutora. Conhecer melhor o corpo para treinar melhor, evitar excessos e perceber sinais que antes passavam despercebidos. Mas há uma diferença importante entre medir e compreender. E talvez a questão não seja apenas o que estes dispositivos sabem sobre nós. Mas perceber até que ponto devemos ouvi-los.

Ivan Couras ouve-os. Mas já aprendeu a não obedecer sempre aos dispositivos. Aos 45 anos, este engenheiro eletrotécnico, com passagem profissional pela área de Data Science, anda quase permanentemente com um relógio no pulso. Corre com ele, treina com ele e dorme com ele. “Se me perguntar se durmo sem o relógio, a resposta é ‘não’. Durmo sempre com o relógio.” Só há uma altura em que prefere não saber o que a máquina tem para lhe dizer: antes de uma prova importante. Aí, quando aparece no ecrã aquela primeira mensagem sobre o estado do corpo, ignora-a rapidamente. “Nem quero ver nada. Fica para depois da prova.”

O desporto acompanha-o desde miúdo. Começou na natação, regressou às piscinas já adulto e, durante a pandemia, passou também para a corrida e para a bicicleta. Daí ao triatlo “foi um tirinho”. Hoje, casado e com duas filhas, continua a ser, como faz questão de sublinhar, “puramente amador”, mas prepara um Ironman (uma superprova de triatlo que combina quase quatro quilómetros de natação, 180 de bicicleta e uma maratona [42,2 quilómetros]) e, nas semanas mais exigentes, chega às 16, 17 ou 18 horas de treino.

Estamos reféns daqueles relógios?

Começou por um relógio para controlar tempos, ritmos e frequência cardíaca. Quando percebeu que os registos medidos no pulso nem sempre batiam certo, comprou uma cinta cardíaca. Seguiram-se um relógio capaz de medir sono e recuperação e, para a bicicleta, um rolo inteligente que permite pedalar e treinar em casa. “Ir para a estrada todos os dias não é viável. É muito tempo, é perigoso, há a noite, há acidentes”. As voltas maiores ficam sobretudo para o fim de semana. Durante a semana, basta-lhe praticamente um clique para começar a pedalar.

Há até inteligência artificial metida nesta espécie de laboratório doméstico. “Hoje até peço à inteligência artificial: ‘faz-me um plano de treino para uma semana’. Depois converto-o e passo-o para o [relógio] Garmin”. Noutras alturas, a experiência já lhe permite executar aquilo que sabe que tem de fazer.

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