IA é como fast food, “pouco saudável ao fim de um ano”

Out 24, 2026

Não julgam, estão disponíveis 24 horas por dia, sete dias por semana e ainda vêm com o bónus de dar sempre razão ao interlocutor. Em teoria, a relação que qualquer pessoa ambiciona ter — tirando o facto de a descrição ser de um chatbot de inteligência artificial (IA) e não de um humano.

A investigadora norte-americana Amelia Miller, de 29 anos, dedica-se ao estudo da “intersecção entre tecnologia e intimidade”, explica em videochamada com o Observador. Estudou Ciências Sociais e Ciências da Computação e, recentemente, terminou um mestrado em Ciências Sociais da Internet no Instituto de Internet de Oxford. Trabalhou durante cinco anos como investidora na capital de risco Insight Partners, em Nova Iorque, mas decidiu mudar de vida para investigar como as máquinas estão “a mudar a forma como nos relacionamos connosco próprios e com os outros”.

“Por trabalhar na área do capital de risco e ter um contacto direto com muitas empresas de IA, comecei a preocupar-me cada vez mais com o impacto que estas ferramentas têm em nós e com as repercussões sociais desta nova geração de plataformas tecnológicas”, conta. Decidiu que era tempo de voltar a estudar, com uma ideia concreta em mente: perceber se quem cria as plataformas e tem poder de decisão sobre as funções tem em conta o impacto nos utilizadores do ponto de vista de “dependência emocional”. 

Primeiro, publicou alguns anúncios no LinkedIn para encontrar casos para cimentar a investigação. “Comecei a ser contactada por pessoas que diziam ter uma espécie de relação com os chatbots”, recorda. Um dos casos era o de uma mulher que dizia estar numa relação romântica há dois anos com o ChatGPT, a que chamava Charlie. Jamie, o nome usado para proteger a identidade da mulher, tinha um parceiro (humano) e uma família — e “todos interagiam com Charlie“, explicou Amelia Miller num dos workshops. Mas nem todos os casos eram de relações românticas com a IA. “Há pessoas que dizem ‘ah, como não tenho um namorado ou namorada IA a minha relação com essa tecnologia é saudável‘. A perspetiva que tenho é a de que qualquer pessoa que interaja com chatbots já tem uma relação com a IA.”

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